Na ocasião em que deixei de morar em minha cidade, uma pessoa que carrego no coração me disse que, mesmo sendo piegas, ela "não aprendeu a dizer adeus" e, sendo sincera, "não sabia se iria se acostumar". Desde criança tenho alguma familiaridade com viagens e despedidas, e, devo dizer, a despedida antes de uma viagem de ônibus possui uma melancolia suis generis. A despedida mais recente que enfrentei (não sei como conjuga o verbo... Despedida se passa, enfrenta, vive?) ocorreu bem na semana em que descobri o áudio acima. A música é do monolito que ainda me falta uma década para poder dizer que conheço minimamente: Leonard Cohen. Cantada, desta feita, por Renato Russo. A música, como tantas de Cohen, existe no universo do "broken hallelujah", um ato que se opõe ao modo de vida do que é sagrado e que aponta para uma experiência muito maior do que a cena registrada. O que presentemente me chama atenção na música é a comparação entre o amor genérico, que já foi experimentado por tantos, e aquele amor específico que dói no coraçào na hora de partir:
Yes, many loved before us, I know that we are not new. In city and in forest they smiled like me and you, but now it's come to distances and both of us must try. Your eyes are soft with sorrow... Hey, that's no way to say good bye.
Lembra a frase noventista que dizia que as "dores que ninguém nunca sentiu são o sentimento mais comum". Resume-se aquele tipo de dor que não faz sentido doer desse jeito, aquela que não doeria tão doída se soubéssemos quando dói a vida, não é mesmo? É quase uma antinomia constatar ser ela ao mesmo tempo tão comum e trágica. No entanto, ela dói e, de fato, demonstra como não fomos preparados para dizer adeus. Afinal, é triste a declaração daquele pregador, de que há tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar (Eclesiástes 3.5). No frigir dos ovos, parece-me que o adeus é tão anti-natural quanto a morte. É verdade! Lembra o autor que dizia que ignorar as pessoas era uma quebra do sexto mandamento: que seria o "você morreu para mim" senão realmente matar a pessoa em seu coração (Mateus 5.21-22)? Tenho a sensação de que ao mesmo tempo que a despedida forçada, com o coração sujo, evoca o assassinato, a despedida triste, que não queria ser assim, nos traz aquele mesmo sentimento de algo está errado, que não é natural, o mesmo que sentimos na ocasião da morte.
A segunda música fala da despedida suja. Há uma despedida que é feita por "birra" e, espera-se, tenha certas limitações que a despedida melancólica não tem. Don't think twice, it's alright narra a história de um homem que fugiu por conta de experiências amargas e, mais profundo que isso, amarguras no coração. Digo que essa despedida tem algum grau de limitação porque as durezas no coração se exacerbam quando estamos próximos e, por conseguinte, diluem-se em alguma medida quando partimos. O contato com os outros dói, lembremos que é no contato com o ferro que o ferro se afia (Provérbios 27.17) e isso presume que algo do ferro é abandonado no processo de afiar-se. Quando nossos corações interagem (o que acontece em toda interação humana), tudo o que carregamos conosco entra em cena. Isso muitas vezes gera confronto, mas há uma benesse dada aos reles mortais que facilita a reversão do adeus: temos memória curta. Quando nos afastamos, muitas coisas que, no momento do confronto, pareciam importantíssimas, devanescem pela ação do tempo e dessa limpeza da memória. Essa realidade, por si só, já é motivo suficiente para, no trabalho de renovarmos nossa mente, termos cuidado especial com a amargura. Quando deixamos de prestar atenção nos defeitos daquilo que aconteceu em nosso passado e reinterpretamos nossa experiência pela realidade da graça de Deus, vivemos uma vida mais feliz. Quando queremos de verdade, temos memória curta até para as coisas ruins. Se, ao contrário, substituímos a imagem das pessoas que nos machucaram por um estereótipo, lembrando-nos dos erros cometidos com um diabólico deleite, cultivamos a amargura e passamos a morar nela. Haver uma meia-vida para a despedida amarga também encontra base na ideia de ter ela alguma coisa com o fenecimento. Se o adeus do primeiro parágrafo se aproxima da "morte morrida", neste ele se aproxima da "morte matada". Passado o momento de ira, virá a reflexão sobre se realmente o assassinato era a melhor opção.
No fim, creio que a resposta para as duas despedidas seja a mesma. A morte se resolve na ressurreição do corpo, evento em que a parcialidade dará lugar à plenitude. Existem despedidas amargas que não conseguiremos remediar. Elas podem durar nossa vida toda (ou a vida toda daquele com quem nos amarguramos). Um dia, no entanto, nós, os que vivemos, nos encontraremos todos na vida eterna. Se não conseguirmos resolver as amarguras daqui, lá as despedidas amargas se resolverão. A despedida melancólica também se resolverá (we shall meet on that beautiful shore!). A tristeza de estarmos espalhados dará lugar à congregação e o desencontro dará lugar à união (João 17.11).
Disso afirmo duas coisas. A primeira é que provavelmente tomarei muito tempo para pensar na frase do velho Vinícius, que disse (releve-se a macumbaria da música) que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Outra é que, mesmo com toda reflexão e embasamento, despedidas são tristes.
You know my love goes with you
ResponderExcluirAs your love stays with me,
It's just the way it changes
Like the shoreline and the sea,
But let's not talk of love or chains
And things we can't untie,
Your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye <3